segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Resenha do álbum: User Ne - Atropa Natura

Fazendo o redator cair do cavalo...

Review publicado no site http://www.novometal.com/

Use Ne

Atropa Natura

Para os leitores que não me conhecem, não vai ser surpresa alguma eu declarar agora que este é um dos melhores álbuns de Metal que já tive a felicidade de escutar na vida. Mas, para quem teve oportunidade de ler algumas de minhas declarações mais polêmicas – em particular quando menciono não suportar música pesada cantada em castelhano, espanhol, português ou italiano – suponho que isto está sendo algo meio chocante (bom, para mim, sem dúvida, está). Manjam aquele lance de “não cuspa pra cima”, de “nunca diga nunca”? Pois é, aconteceu comigo...

Os temos “criativos”, “ecléticos” ou “insanos” não fazem justiça em uma tentativa de descrever os nove músicos geniais que conceberam esta obra-prima musical de nome Atropa Natura. Claro, tive também que dar um jeito de escutar os outros dois full-lenghts dos caras, para checar se não temos aqui mais uma daqueles usuais fenômenos isolados, o tal do raio que não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas (com felicidade, diga-se) constatei que não é este o caso, e espero ter em breve a oportunidade de escrever outros textos para os demais álbuns destes espanhóis que atendem por User Ne. Será gratificante, como ocorre neste momento.

Agora, vamos a meu grande susto, ao trauma positivo que sofri na primeira audição desta bolacha: temas com letra em espanhol, mas que não reduziram em um nanômetro sequer o prazer que senti ao escutar cada uma das dezessete composições aqui contidas. Sim, dada a versatilidade e inquietude que obviamente caracteriza esta turma no aspecto inventivo, Atropa Natura também inclui músicas em francês, alemão, inglês, latim e sei lá o quê mais – o que é fantástico, claro. Mas a maioria é em espanhol, e pela primeira vez em minha trajetória posso afirmar, sem desconforto algum, que isto não representou o menor incômodo para meus ouvidos (normalmente tão seletivos neste ponto).

O User Ne emprega muitos elementos folclóricos, tanto através do trabalho de vozes dos quatro (!!!) vocalistas, quanto pelo uso constante de instrumentos como gaita de fole e flauta. Mas, diferentemente do que apurei na mídia especializada, prefiro não classificá-los como banda Pagan Metal. Isto porque o Folk claramente não é o ingrediente que define o grupo, não é o “X” da questão - e sim uma dentre as muitas e distintas ferramentas que os abusados utilizam. Assim, temos em Atropa Natura uma quantidade grande de faixas (dezessete, em bons sessenta minutos de música), onde nenhuma se parece com as demais, dada a diversidade de abordagens que os músicos conseguem adotar. Algumas nada tem de folclóricas – mas também nada possuem de tradicional ou conservador (sendo, na verdade, experimentais e inusitadas ao extremo), o que me leva a escolher o termo Avantgard Metal como o rótulo mais próximo onde encaixar esta banda quase irrotulável.

Todos os instrumentistas e vocalistas mostram performances fabulosas, com talento inequívoco e técnica perfeita dentro do contexto de cada uma das excêntricas composições. A voz feminina, por exemplo, possui uma beleza de fazer inveja a qualquer banda Gothic... mas sem abusar dos tons agudos e soar pomposa demais. As partes cantadas em espanhol são tão contagiantes como qualquer outra, pela primeira vez (ao menos para meus ouvidos, claro), encontrando o nicho exato para se encaixar de forma irrepreensível, em meio às possibilidades quase infinitas que o Heavy Metal proporciona.

Não dá pra apontar destaques qualitativos, mas alguns temas merecem ser citados, por diferentes (mas sempre exóticos) fatores: “Atropa Datura” começa como um diálogo por rádio. O clima tenso que guia a melodia central, somado à capacidade interpretativa dos vocalistas e aos efeitos especiais que permeiam o negócio, fazem-na de fato soar como algo tenso, capaz de gerar real expectativa. E algo curiosamente agradável de se ouvir - mesmo nos trechos em que os vocalistas não estão exatamente cantando, mas sim apenas dialogando em espanhol!

Já “Finger Pinini”, cheia de efeitos sonoros que constroem o ambiente do local em que os protagonistas estão, traz por algum tempo apenas dois homens conversando – sim, também em espanhol – e depois cantando em tom completamente inesperado e distinto do que se poderia esperar. Incrível como funciona bem, mesmo saindo completamente dos rumos previsíveis – ou, talvez, justamente por isto.

Por fim, temos “Todos Recordamos”, uma faixa instrumental e longa, que a princípio pareceria maçante – mas que, por algum motivo, não o é! A coisa não sai muito de uma mesma linha ao longo dos mais de seis minutos, mas, talvez por ter acabado de passar por uma seqüência de quinze temas variados e surpreendentes, tive plena paciência e prazer em ouvi-la por inteiro, numa boa. Será que ela foi colocada estrategicamente neste ponto do álbum para permitir que nosso cérebro relaxe um pouco, enquanto acaba de processar e assimilar a profusão de diferentes sabores pelos quais acabou de passar? Haverá um psicólogo ou neurologista dentre o line-up do User Ne?

Bom, o fato é que tudo isto aqui foi uma grande e deliciosa surpresa... mas atrapalhou meus planos no dia em que o escolhi para escutar. Eu estava inspirado, pretendia escrever umas seis ou sete resenhas em seqüência - só que a audição de Atropa Datura me fez perder o estímulo em ouvir qualquer outra coisa que não fosse ele mesmo, uma vez após outra... até ficar muito tarde e este redator que vos escreve enfim se ver obrigado a desligar o som pra não escutar reclamação dos vizinhos...

Tracklist:

01. Cuadrante 4
02. Vientos Ne Mar
03. Ramlun Sahra Un
04. Chanson, Femme, Vie
05. Das Uhört
06. Atropa Datura
07. Temptation Of Belief
08. 1, 2, 3, Jari
09. III
10. Mañana Mañana
11. El Chascarrillo
12. Inverness Medical Center
13. Stramonium
14. Finger Pinini
15. Asita Venres
16. Todos Recordamos
17. Gaia (Bonustrack)

Ano de lançamento: 2006

Tempo total: 61 Min

Gravadora: Dark Symphonies

Line-Up:

Xalen D Kharnash: Vocal
Pantaraxia: Vocal
Bossu Morbious: Vocal, “Programming”
DeBog: Gaita De Fole, Flauta, Vocal
Reda: Guitarra
Ashkar: Sintetizador
El-Zamut: Bateria
Hils Ver III: Baixo
Kyrtan: Flauta, Percussão, Caixa Flamenca

Nota: 10.00

Um comentário:

  1. Legal essa fome pelo "novo",que vc tem despertado em mim!
    Só de ler a resenha,fiquei na vontade de ouvir,e ouvirei é claro,rsrsrsrsrsrs!
    Essa pelo jeito vai ser só alguma das muitas
    que ouvirei,depois da indicação desse meu amigo querido aqui!
    Grata por partilhar amoreeee!

    Beijão e témais anjo!

    Eu

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