A obra-prima mais injustiçada de todos os tempos
Aproveitando trechos do review “Blaze – Silicon Messiah”, publicado no sitehttp://www.novometal.com/
Iron Maiden
The X Factor
Repassemos rapidamente alguns fatos que já fazem parte da história do Heavy Metal: todo e qualquer fã de música pesada vai se lembrar de quando Bruce Dickinson saiu do Iron Maiden, que, tempos depois, lançou um novo full-lenght com o novo frontman Blaze Bayley. Nunca constatou-se uma enxurrada tão grande de manifestações negativas por parte de público e crítica especializada, como a que se seguiu ao advento do álbum The X Factor, play de estréia do novo vocalista. Situação esta me deixou particularmente revoltado .
Considero Blaze uma vítima das circunstâncias e um injustiçado. Ao estranhar não apenas uma abordagem vocal radicalmente nova, como também a surpreendentemente exótica e diferenciada textura instrumental que acompanhou a estréia de Blaze, os fãs do Iron Maiden não notaram que o álbum The X Factor consistia em uma absoluta obra-prima da Donzela de Ferro, uma contribuição de valor inestimável ao cenário metálico naqueles tempos de estagnação criativa.
Sim, não tenho receio em repetir que o produto em pauta aqui representa um dos álbuns de Heavy Metal mais fantásticos e irretocáveis de todos os tempos – e teria gostado muito de já ser um redator especializado na época, para poder publicar uma resenha à respeito (e provavelmente gerar uma polêmica sem tamanho, daquelas que fazem tremer os bits de um site).
Gostaria de ter tentado fazer minha (modesta) parte em oposição ao que ocorreu, quando o apego dos fãs e da mídia à figura carismática de Bruce Dickinson (além de uma inevitável e irracional veia conservadora que domina a comunidade headbanger em ocasiões como esta) fez com que a sublime convergência de fatores positivos inserida em The X Factor passasse batida à percepção dos fãs - pior, fez com que o brilhante play fosse execrado com produto de segunda linha.
No caso da bolacha seguinte do grupo com Blaze nos vocais, Virtual XI, ok - concordo e apóio as críticas. Mas de The X Factor para Virtual XI há uma distância imensa, como há também para todos os demais trampos da banda, que possuem, em maior ou menor grau, seus altos e baixos. Mais altos do que baixos em muitos deles, claro, mas nada que se compare a The X Factor e seu conjunto coeso de onze temas irrepreensíveis em sua atmosfera sombria unificada, regada por uma inspiração instrumental poucas vezes vista (ou melhor, ouvida) e uma linha vocal que raramente se encaixou tão bem à proposta de um álbum.
Foram poucas as ocasiões em que observei este tipo de perfeição. Há o The Black Album doMetallica, o Nexus Polaris do (na época) Covenant, o Tortura Insomniae do Ebony Tears, oOutcast do Kreator, o Stormbirds do Ever Eve, o 4 do Danzig, o Sigh No More do Gamma Ray, oPink Bubbles Go Ape do Helloween, o Atropa Natura do User Ne, o Strings Attached do Salem, oPrince Of The Poverty Line do Skyclad... bom, a lista é pequena. Devo estar me esquecendo de uns três ou quatro, no máximo.
Uma boa dica para quem quiser tentar uma reavaliação de sua impressão sobre The X Factor, através de novas audições: pensem neste álbum como se fosse o play de uma outra banda. Escutem-no pelo que ele é, por si só, sem comparar com os outros álbuns do Iron Maiden (de atmosfera e contexto totalmente diferentes), que tantas alegrias - mas de tempero diferente - já lhes deram. São propostas radicalmente divergentes. Não tentem comparar o doce com o salgado, a tradição com a inovação. Cada um tem um espaço e efeito diferente em nosso interior, e podem igualmente obter um reflexo agradável se analisados pelo ângulo correto. Ouçam o The X Factor como o álbum de uma nova banda, sem pensar nos caras que estão tocando ali. Quem sabe, com isto não acabem “vendo a luz” (ou, no caso, “vendo as sombras”)?
É certo que os headbangers em geral não estão habituados ao tipo de voz grave e sombria de Blaze em formações de Classic Power Heavy Metal, como no caso do Iron Maiden - e tal fato converteu-se em preconceito pela maioria esmagadora de fãs e analistas. Habituados a vocal agudo, isto certamente impediu que muitos assimilassem a qualidade do efeito que Blaze conseguiu emplacar junto às assombrosas melodias criadas por Steve Harris & cia naquela ocasião. Deve-se acrescentar que a opção por melodias instrumentais "down" em lugar das usuais "up" não ajudou nada na aceitação pelos fãs da banda.
Também devemos considerar que o timbre sombrio do novo vocalista provavelmente influenciou o restante da banda, fazendo-os, pela primeira vez, apostar em um instrumental denso, em certos momentos até tétrico, pleno de suspense (que se adaptou perfeitamente à interpretação vocal diferenciada). Ou seja, uma coisa puxou a outra. Mais méritos, portanto, para a figura de Blaze Bayley pelo inusitado resultado final do produto. Não que ele tenha sido devidamente elogiado e reconhecido na época...
No final das contas, Blaze saiu do Iron Maiden após o grupo ter feito uma segunda e (desta vez, concordo) malfadada tentativa de emplacar a nova formação e proposta. Então, Bruce Dickinson e o estilo clássico da Donzela de Ferro retornaram à cena. Blaze iniciou um novo rumo em sua carreira, formando uma banda de nome... Blaze – que até tem se saído bem, graças à projeção que seu nome adquiriu após a passagem pelo maior dos medalhões do Classic Heavy Metal em todos os tempos.
O trabalho que Blaze tem feito após a saída do Iron Maiden é realmente bom, mas não chega aos pés da perfeição de The X Factor. Mas, com certeza, ele chegou bem mais longe do teria conseguido se continuasse cantando no desconhecido Wolfsbane e os ingleses do Iron Maiden nunca houvessem lhe convidado a integrar a banda. Sorte nossa. Caso contrário, o mundo também teria perdido uma primorosa obra de arte sonora, conhecida com The X Factor - que, espero, venha um dia a ser compreendida e redimida junto à cena metálica. A posteridade nos dirá.
De qualquer forma, já fiquei feliz por receber várias e inesperadas manifestações (espantosamente positivas) de vários leitores do NovoMetal, após ter tecido boa parte dos comentários acima dentro do review que publiquei sobre o Silicon Messiah, primeiro álbum de vários que Blaze lançaria com seu novo grupo.
E finalmente, após muitos anos de enrolação, crio vergonha na cara para redigir e postar este texto (agora específico) sobre um dos meus álbuns preferidos e matar a vontade que estava reprimida há tempos...
Tracklist:
01. Sign Of The Cross
02. Lord Of The Flies
03. Man On The Edge
04. Fortunes Of War
05. Look For The Truth
06. The Aftermath
07. Judgement Of Heaven
08. Blood On The World’s Hands
09. The Edge Of Darkness
10. 2 A.M.
11. The Unbeliever
Ano de lançamento: 1995
Tempo total: 70 Min
Gravadora: EMI
Line-Up:
Blaze Bayley: Vocal
Steve Harris: Baixo
Janick Gers: Guitarra
Dave Murray: Guitarra
Nicko McBrain: Bateria
Nota: 10.00