A consagração da vanguarda alemã
Resenha publicada no site www.poppycorn.com.br
Rammstein
Rosenrot
Os alemães do Rammstein protagonizaram, há alguns anos, uma pequena revolução na música pesada. Valendo-se de elementos do Metal industrial, Rock ‘n’Roll e música eletrônica, criaram um estilo próprio e arrojado, que arrebatou uma legião de fãs nas fileiras das várias vertentes musicais envolvidas, e vêm fazendo escola desde então. Sempre tendo a ousadia como bandeira principal em sua proposta.
A mais nova amostra desta fabulosa experiência auditiva está representada no novo álbum dos caras, Rosenrot. O espetáculo já começa pelo trabalho artístico que envolve a apresentação do produto – mesmo sem conhecer a banda, dá vontade de comprar só pela belíssima imagem da capa. O interior do encarte não fica atrás, e, se considerarmos a versão em formato digipack, só a música sendo muito ruim pra resistir à vontade de ver este objeto em nossa coleção.
Agora, se levarmos em conta o alto nível também no conteúdo musical de Rosenrot, fica fácil ceder à compulsão do nosso lado consumidor. Verdade seja dita, este novo trabalho não chega ao mesmo nível do álbum anterior, o fantástico Reise, Reise. Mas mantém a linha de ação característica da banda, com momentos de incrível originalidade, como na faixa ‘Te Quiero Puta!’, sobre a qual entraremos em detalhes mais adiante.
Quem já teve contato com o som destes insanos sabe qual é o ‘x’ da questão por aqui. Primeiramente, o inspirado equilíbrio entre guitarras com forte acento metálico e uma cozinha de pegada firme, quase brutal, com linhas melódicas eletrônicas pesadas. A química entre o som, digamos, ‘orgânico’ dos instrumentos tradicionais e as linhas sintetizadas de extremo bom-gosto (e sem frescuras ou exageros), aliados à estrutura industrial das composições, define a cara do Rammstein.
E por fim chegamos ao toque de mestre. Para fechar com chave de ouro a perfeita combinação de elementos, o Rammstein tem também os vocais em alemão. É incrível como este idioma confere, por si só, uma baita carga de agressividade ao som. A forma ríspida com que as palavras saem, aliado ao timbre característico que automaticamente assume a voz da maioria dos vocalistas que trabalha com o alemão, tem tudo a ver com música pesada, com a proposta da banda em si. Até composições lentas soam fortes, poderosas, principalmente em função do efeito ‘esticado’ que se obtém ao pronunciar as consoantes, em especial o ‘r’, que soa sempre arrepiante. Até sussurros e declamações em alemão soam carregadas e eficazes neste sentido.
Quanto ao destaque de Rosenrot, sem dúvida fica por conta da nona faixa, a já supracitada ‘Te Quiero Puta!’. Assim como no álbum anterior, onde em duas faixas o Rammstein utilizou idiomas diferentes – o inglês e o russo, na bem sacada dobradinha ‘Amerika’ e ‘Moskau’ – neste novo trabalho eles praticam este interessante artifício, e, agora, em uma letra completa, ao invés de apenas nos refrões. Confesso que sempre fui meio avesso a letras em castelhano, é um idioma que não me agrada na forma cantada. Mas isso é porquê eu nunca tinha escutado o castelhano com sotaque alemão...
Recomendo esta experiência a todos. Quem não estiver pensando em adquirir Rosenrot, dê um jeito, pelo menos, de escutar a faixa supracitada. Além do impagável clima ‘xicano’ da estrutura instrumental, com trompete e tudo – claro, magistralmente aliado ao peso das guitarras e cozinha - ‘Te Quiero Puta!’ traz uma interpretação incrivelmente passional e envolvente do vocalista Lindemann (como de costume), com o atrativo adicional do inusitado idioma utilizado, aqui duplamente peculiar devido à técnica e sotaque que o alemão sempre agrega à suas vocalizações.
Ah, e além disso, nesta faixa temos também um despojadíssimo conjunto de vozes femininas (feito por Carmen Zapata) aparecendo em vários momentos. Claro, fazendo o nobre papel das profissionais que o personagem da letra tanto aprecia...
Outros grandes momentos do play: ‘Benzin’ (pesada e excelente faixa de abertura), ‘Stirb Nicht Vor Mir / Don’t Die Before I Do’ (onde há um dueto entre os idiomas alemão e inglês, sendo o inglês executado pelo lindo vocal feminino de Bobo) e ‘Feuer Und Wasser’ (lenta, introspectiva e hipnótica).
Contra-indicações? Que nada, sirva sem moderação.